segunda-feira, 23 de maio de 2011

Xinã Shabá


XINÃ SHABÁ - NOVA AURORA NO HORIZONTE PANO
por Eduardo Paemuka
Outrora havia pelas veredas aquáticas da floresta imperial, no sertão verde do que hoje vem a ser a Amazônia Ocidental brasileira, uma confederação de clãs tribais, com uso de semelhante (e semelhantes) raiz linguística e fundamentos culturais no concernente à sobrevivência e permanência em uma terra já ancestral. Agora conhecidos como povos Pano, nomeação moderna que procede apenas do nome particular de um extinto clã ligado ao grupo Shipibo ou Shipinawa, em verdade todos oriundos de um antigo complexo civilizacional que formava o que os primeiros narradores europeus conheceram como o Paitite, de cuja existência comprovada apenas restam alguns geoglifos curiosos na selva boliviana, com poucos achados na margem oeste do Rio Acre, o que indica que a dispersão do Paitite, quando do avanço dos Inkas na região do Antisuyu, ocorreu na direção das cabeceiras do Purus e Juruá, possivelmente por volta do século 13 segundo a cronologia peruana. Só seriam atingidos pela presença espanhola a partir do século 18, sendo que na virada do século 19 para o 20 é que o processo etnocida da empresa colonista republicana atingiu seu ápice, extinguindo-se então cerca de dois terços dos clãs Pano mesmo com a amálgama entre sobreviventes de aldeias destruídas pela ação de peruanos e brasileiros.

Estudados pela Etnografia brasileira na obra basal do historiador cearense Capistrano de Abreu, o "Rã-Txá Huni-Kuin", gramática que em 2014 completará um centenário de sua publicação pioneira (ocasião propícia para uma nova edição, em projeto para incluir agora uma avaliação por parte de membros de sua etnia que já não apenas escrevem e leem em sua língua materna mas também são professores universitários, como os amigos Joaquim Maná e Ibã Sales), os HUNIKUIN ou Kaxinawá são o mais numeroso povo de língua Pano no Brasil. Em maio de 2011, na Aldeia Maehundua, na Terra Indígena Kaxinawá Seringal Independência, o festival cultural hunikuin promovido pela associação indígena local mobilizou o município acreano de Jordão para a vinda do propalado etnoturismo, em desenvolvimento por interesse das próprias comunidades em fazer com que seus produtos culturais alcancem o resto do mundo, e sejam símbolos de uma Cultura diferenciada, de base agroflorestal, espiritualista e com práticas terapêuticas próprias, que quer se incluir como representante da diversidade cultural planetária e sua correspondente prática de cidadania. XINÃ BENÁ, o nome do festival, significa tanto um novo pensamento quanto um novo tempo. Com essa invocação começou a família Hunikuin a proposta de um aprimoramento de sua sistemática de administração e busca de resultados para a vida das suas coletividades.

O passado, o que procedeu do antigo sistema autoritarista em que as primeiras lideranças indígenas no Acre foram formadas, no começo dos anos 80, e as resultantes falhas na administração do movimento indígena acreano como um todo, pode ser considerado superado. A presença de Bira Yawanawa e Yube Hunikuin, dois assessores especiais do governo da florestania, bem como da secretária de Turismo do governador Tião Viana, Ilmara Rodrigues Lima, trouxe um reforço especial para as propostas do "Xinã Bená" anunciado em Jordão. A reunião de muitos pajés jovens, mulheres artesãs e lideranças em formação, agentes agroflorestais e de saúde, transmitiu ao acontecimento a aura necessária de renovação de ares. A aldeia Lago Lindo, antes formada no antigo campo de gado do Seringal Independência, que o cacique-geral Siã Kaxinawá adquiriu para transformar em terra indígena a partir de uma premiação no exterior, localizada por ele junto a três lagos formados em uma curva perdida do Alto Tarauacá, morada de profundos encantos da Natureza, ela própria já não existia mais enquanto aldeia: teve de ser reinventada, reerguida, recontextualizada. De modo surpreendente conseguiu ser aprontada em curto espaço de tempo, para ser reinaugurada neste festival, o que demonstrou o esforço e empenho dos Hunikuin do Jordão.

Abrilhantaram a festa os amigos Kuntanawa, que atravessaram a mata desde sua terra no Alto Rio Tejo, para chegar no município de Jordão e de lá embarcarem para Maehundua. Haru Xinã é seu cacique-pajé, e como pajé-cantor assegura momentos de muita boa energia nos trabalhos com o Nishi Pae, a sagrada Ayahuasca. Além do festival de seu próprio povo, que vem em julho próximo, é Haru o responsável pelo projeto cultural do Corredor Pano junto ao Instituto Guardiões da Floresta, e portanto vem exercendo uma representatividade cultural de longo alcance. Foram os Kuntanawa os mais atingidos pelo processo etnocida na ocupação do Vale do Juruá, e hoje encabeçam o movimento pela identidade cultural dos povos de língua Pano pois são os principais interessados nesse resgate, já que havendo perdido língua e iconografia próprias, dependem dos aportes dos grupos mais próximos, como os Hunikuin e Yawanawa. Redescobrir e reinventar sua etnia, é um exercício conhecido por todas as nações da floresta, pelo prazer da biodiversidade provocando a etnodiversidade, com o grande alicerce, no caso dos clãs de língua Pano, de um instrumento de estruturução da identidade étnica que pode ser considerado essencial: a bebida da Ayahuasca, o Shure do Nishi Pae. Nesta comunhão indígena reside o mistério ancestral que os antigos pajés legaram para, afinal, alcançarmos a chegada de uma nova manhã, um feliz "Xinã Shabá".

Haux, haux, haux !!!

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