sexta-feira, 7 de maio de 2010

Haxixe, Sufis e Islã


poema do "místico do amor" sufi Mawlānā Jalāl-ad-Dīn Muhammad Rūmī

Por Chema Ferrer Cuñat, coordenador da revista “El Trotamundos”, em LOS TEMPLARIOS Y LA SECTA DE LOS ASESINOS, págs. 405-431. In: “Codex Templi – Los mistérios templarios a La luz de La historia y de La Tradición”. Coord: Fernando Arroyo Durán. Madrid, Santillana – Aguilar, 2005.

“(...) O fundador da seita dos Assassinos, em 1090, foi o carismático Hasan al Sabbah, conhecido como ‘O Velho da Montanha’.
A chamada ‘seita dos hashshashin’ ou Assassinos derivou do ismaelismo (xiismo septimano) e das doutrinas dos sufis, consideradas desviadas e heréticas pelo Islã. Estavam também imbuídos do esoterismo grego-alexandrino, ou seja, o hermetismo e o neoplatonismo. Tal foi sua fama que, até o mesmíssimo Marco Polo (c.1254-1324) relatava a Rastichello de Pisa, o escritor que plasmou suas viagens no ‘Livro das Maravilhas do Mundo’, quem eram aqueles misteriosos cavaleiros islâmicos. Foi tanta sua popularidade, por cometer crimes e magnicídios entre os mais relevantes personagens de seu tempo, que, segundo outras teorias, o apelativo de hashshashin ou hashashiyyin (comedores de haxixe ou drogados de haxixe) derivou até o conceito de ‘assassino’. Apesar de que o significado deste vocábulo estava vinculado aos ‘comedores de erva’, a fama daquela gente variou o sentido que se deu na Europa: em numerosas línguas ocidentais, um ‘assassino’ é o criminoso que comete um homicídio. Cabe assinalar, entretanto, que aos membros desse exército secreto eram também chamados ghulat (fanáticos) por seus inimigos, e que no Ocidente foram conhecidos como Assassinos, o que não lhes faz justiça de todo. Parece que Marco Polo se confundiu ao ouvi-los chamar hashshashin. Acreditou o célebre viajante e comerciante veneziano que tal denominação se devia a que seu cruel fanatismo era estimulado pelo consumo de haxixe. Daí se deriva, em várias línguas românicas, a palavra ‘assassino’. Mas a verdade parece ser outra. Se acreditamos no grande escritor de origem libanesa Amin Maalouf, em seu livro magistral Samarcande, a palavra provém da forma como Hasan al Sabbah costumava chamá-los: assasiyoum, ou seja, fiéis ao Assa, ou seja, ao Fundamento da Fé. Eram também chamados os fidai, ou seja ‘os que se sacrificam’. Portanto, uma forma mais correta de chamá-los seria assassis ou assacis.
(...)
O chamado ‘haxixe’ é uma concentração de pólen extraído das flores da planta do cânhamo. Dependendo da variedade concreta da planta, concentra em maior ou menor medida umas substâncias chamadas ‘canabinóides’, de poderosos efeitos alucinógenos.
A relação do cânhamo e seus derivados com os povoadores da Ásia tem origens ancestrais e ainda se discute se foi esta planta ou o trigo a primeira que se utilizou quando nasceu a agricultura. Não é pouco dizer que a tradução da palavra árabe hashish é a mesma que ‘erva’. Do cânhamo se extraíam fibras com as quais se confeccionavam tecidos muito resistentes; esmagado e formando espessa pasta se fabricava o papel: a cidade de Biblos (Síria) se fez famosa por sua qualidade e monopólio inicial; com o cânhamo se trançavam cordas; da moenda de suas sementes se extraía farinha e de sua prensa, um óleo muito nutritivo. Suas florações se utilizavam em práticas terapêuticas e religiosas: desde os ritos xamânicos das sociedades mais primitivas, até os cerimoniais mais sofisticados das religiões persa e bramânicas.
Os árabes conheceram a farmacopéia derivada do cânhamo e seu uso como droga do ócio através dos botânicos e médicos gregos; este singular produto chegava da Índia através da Rota das Especiarias. As traduções ao árabe de autores como Dioscórides ou Galeno permitiram que as elites muçulmanas conhecessem as propriedades daquela planta; mas será no século X que o mundo árabe adquirirá o conhecimento mais profundo sobre as aplicações do cânhamo. Neste impulso teve muita participação a tradução de um livro escrito em aramaico, intitulado ‘Agricultura Nabatéia’.
Mas, que ensinava a doutrina do Islã a respeito deste tipo de substâncias? Os ensinamentos do Alcorão não rechaçavam o álcool ou outras substâncias embriagantes, mas sim alertavam sobre seu uso inadequado e induziam o crente a evitá-las; de fato, apenas em algumas poucas ocasiões foram proibidas taxativamente. Ao contrário, o uso de cannabis – naquela época, unicamente ingerido e nunca fumado - , foi considerado muito indicado entre os adeptos do novo movimento sufi, já que facilitava a comunhão direta com Deus que tanto apregoavam. Estimulavam, mediante o uso destas drogas, a chamada consciência mística. O consumo de haxixe se converteu em um ato a mais de sua religião. O poeta Mamad Ibn Rustum al Isirdi (1222-1258) diria: ‘O haxixe é o segredo com que o espírito se eleva até os mais sublimes lugares, uma ascensão celestial de um espírito livre de ataduras corporais e mundanas’.
Pelo aspecto ascético e sua posição contracultural, os sufis sempre foram incômodos, tanto para o comum da sociedade como para seus dirigentes. Até hoje chega o eco daqueles crentes entre a visão das danças místicas dos dervixes giróvagos da Anatólia, que bailam sob os efeitos da cannabis, substância que lhes ajuda a sobrelevar as longas horas de jejum, oração e meditação prévias.
Do consumo do cannabis entre os pertencentes à seita sufi, dava notícia o viajante e botânico hispano-muçulmano Ibn al Baytar al Malqi, que nasceu em Málaga e morreu em Damasco no ano de 1248. Contava que seu primeiro encontro com o cannabis foi no Egito; lá observou que os sufis cozinhavam as folhas e inflorações a fogo lento, até que se secavam. Logo, as prensavam e formavam uma espécie de pílulas, acabando-as de tostar com gergelim e açúcar. As comiam com fruição, como se fossem guloseimas. De seu consumo desmedido, Al Malqi contava: “Os sufis que consomem o haxixe demonstram constantemente seu efeito pernicioso, já que debilita suas mentes, aparecem como maníacos e inclusive os leva até a morte’.
No ano de 1253, o sultão do Egito, Najm al Din Ayyub, ordena o corte e queima das plantas de cânhamo que tradicionalmente se cultivavam em um jardim da cidade do Cairo, chamado Kafur. Tamanha era a demanda, que os camponeses dos arredores, ao saber que a lei só afetava à cidade, decidiram plantá-lo em seus campos e fazer do mercado de haxixe um próspero negócio.
No mundo islâmico da Idade Média, os ataques contra o consumo desmedido de haxixe cresciam na mesma medida em que se considerava fonte de heterodoxia na religião e gerava problemas de ordem. Uma vez condenada sua possível ação terapêutica, o cânhamo passa a fazer parte dos tratados sobre enfermidades, como o escrito por Badr al Din al Zarkasi: ‘As folhas do cânhamo cultivado produzem dor de cabeça, consomem e secam o sêmen e geram muitas cavilações (...) ; provoca febre héctica, tuberculose, hidropsia e sodomia passiva’...
De sodomia se acusava com frequência os sufis e, por extensão, aos Assassinos, já que se entendia que a sodomia era o resultado de padecer a doença descrita como ‘sodomia passiva’. Esta seria uma doença na qual se inflamam os músculos que rodeiam o ânus e incitariam, ao que a padeceriam, a que continuamente se esteja coçando, chegando a ponto de desejar ser sodomizado, em busca de alívio. Fica claro que não se tratava de uma conjetura muito científica.
A notícia sobre o uso do cannabis entre os povos do Oriente chega na Idade Média a Europa, da pena do abade Arnoldo de Lübeck (séc. XII); em sua obra Cronica Slavorum, este religioso conta os efeitos do cânhamo entre certas seitas otomanas – os dervixes, seguramente – e nomeia a outros, chamados ‘assassinos’, dos quais se conta que cometem seus crimes sob o efeito alucinógeno dessa planta. Na Espanha se escutará pela primeira vez a palavra ‘assassino’ quando Alfonso X ‘o Sábio’ a inclua sem suas famosas cantigas, no século XIII.”


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Um comentário:

Estrada da Harmonia disse...

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